A Biblioteca Orlando Nigro recebeu o monólogo apresentado por André D’Lucca
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Luzes apagadas, cadeiras lotadas e olhares atentos. Foi dessa forma que começou a tarde cultural na Biblioteca Orlando Nigro do IFMT Campus Cuiabá – Cel. Octayde Jorge da Silva, que recebeu na última sexta-feira (10 de outubro) o espetáculo “Sankofa – Nunca é tarde para voltar ao passado e buscar o que importa”, protagonizado pelo ator André D’Lucca.
A apresentação, marcada por cores vibrantes e uma forte presença cênica, convidou o público a refletir sobre ancestralidade africana, identidade racial e o combate ao racismo. “Sankofa é uma verdadeira aula de história da arte, uma imersão cultural. Sempre peço à plateia que abra o coração e os ouvidos, porque muitos de nós, mesmo sendo negros, ainda não nos reconhecemos como pessoas negras”, afirma D’Lucca.
O ator, que nasceu em Cuiabá e hoje vive em São Paulo, ressaltou a importância de levar o espetáculo às escolas, em especial, essa na qual é egresso. “Faço questão de começar pela base, porque a escola é um ambiente muito violento para pessoas negras. Desde cedo, crianças são ensinadas a rejeitar sua aparência, seu cabelo, sua cor. Isso gera um auto-ódio que só é curado com o letramento racial.”
No palco, D’Lucca dá vida ao rei africano Fatumbi, que anuncia a chegada de uma profecia ancestral, enquanto o ritmo dos tambores e das percussões ecoam como vozes dos antepassados. A peça destaca ainda personalidades negras que contribuíram para a formação cultural e histórica de Cuiabá e da região. Entre os personagens retratados estão Tereza de Benguela, Ota Benga, Luciene de Carvalho e Jejé de Oyá.

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Em cena, D’Lucca aborda com sensibilidade temas como o racismo estrutural, a herança colonial e a importância da representatividade negra. O artista compartilha que iniciou seu próprio processo de letramento racial aos 46 anos. “Percebi o quanto eu mesmo desconhecia a minha história. Recebo mensagens de idosos dizendo que estão gratos por não morrer sem conhecer essas verdades.”
Durante a peça, risos, aplausos e expressões de surpresa marcaram as reações dos presentes. A estudante Ana Júlia Oliveira Dias, do 2º ano de Eventos, afirma ter se sentido provocada a buscar mais conhecimento.
“Foram informações que nunca tinham sido apresentadas para mim. Em vários momentos, eu quis pegar o celular e pesquisar mais. São coisas que a gente não pensa, e é essa falta de reflexão que mantém o racismo vivo”, analisa.
Richard Samuel Vieira de Freitas, do 2º ano de Eletrônica, destacou o caráter educativo da apresentação. “Para mim, foi uma verdadeira imersão cultural. Eu não tinha muito conhecimento sobre o assunto, então foi incrível ter esse conhecimento que ele passou para a gente.”
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Já Yasmim Vitória Souza Dias, estudante de Eletrotécnica, o espetáculo trouxe uma nova perspectiva sobre o legado africano. “Na escola, aprendemos sobre os povos africanos apenas ligados à escravidão. ‘Sankofa’ mostra a riqueza, a força e a ancestralidade desse povo. É muito lindo ver isso no centro da narrativa”, analisa.
Foram quatro sessões apresentadas aos estudantes dos cursos técnicos integrados ao Ensino Médio, sendo duas no período da manhã e duas no período da tarde.
O projeto, promovido pela Associação de Desenvolvimento da Educação, Cultura, Esporte e Lazer de Mato Grosso (ADECEL/MT), iniciou em fevereiro uma turnê pelo estado, com 12 apresentações gratuitas em sete municípios, levando ao público histórias de ancestralidade e empoderamento negro.

