O IFMT Campus Cuiabá – Cel. Octayde Jorge da Silva promoveu uma roda de conversa sobre inclusão, acessibilidade e direitos das pessoas com deficiência e neurodivergentes, na última segunda-feira (21/09). Com o tema “Nossas vozes e nossos direitos”, a atividade reuniu estudantes, servidores, egressos e profissionais da instituição para compartilhar experiências e discutir as barreiras encontradas no ambiente educacional e na sociedade.
A programação contou com a participação do egresso Luyz Guilherme Escobar Pinheiro, do estudante do curso de Engenharia de Controle e Automação Guilherme Borges Domingos Cunha e das professoras Hérica Clair Garcez Nabuco e Karina Oliveira Brito, que compartilharam experiências relacionadas à deficiência visual, ao Transtorno do Espectro Autista (TEA) e ao Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).
Durante a abertura, o professor de Educação Especial Ronilson Farias Majjione Balbuena destacou que o público da educação especial inclui estudantes com deficiência, TEA e altas habilidades ou superdotação. “A proposta da atividade é ampliar o conhecimento da comunidade acadêmica sobre essas condições e discutir estratégias para reduzir barreiras que podem interferir na participação e na aprendizagem.”
Com deficiência visual total, Luyz Guilherme relatou sua trajetória como estudante do IFMT e destacou a importância da acessibilidade e do diálogo entre estudantes e professores.
“Uma das principais barreiras enfrentadas pelas pessoas com deficiência está relacionada às atitudes e a falta de conhecimento sobre suas necessidades. Recentemente, eu tive experiência em uma instituição de ensino superior, na qual negou a minha matrícula em razão da deficiência, o que me levou a buscar o Ministério Público para ingressar com as medidas necessárias. Não admito que me caracterize pela minha deficiência.”
Durante o relato, Luyz destacou ainda a importância da comunicação entre professores e estudantes para a construção de estratégias de acessibilidade. “Um professor me perguntou um dia ‘como que eu faço para trabalhar com o meu aluno que tem deficiência?’ e a minha resposta foi muito simples, eu disse ‘conversa com ele, pergunta para ele’”, relatou.
O egresso também apresentou recursos utilizados por pessoas com deficiência visual, como a audiodescrição e o Braille. A audiodescrição, para Luyz, permite que conteúdos visuais, como imagens, slides e cenas, sejam descritos verbalmente, o que amplia as possibilidades de acesso às informações.
A professora de Biologia Hérica Clair compartilhou sua experiência como pessoa autista e com TDAH e explicou como o ambiente pode interferir na participação de pessoas neurodivergentes. “Eu recebi o diagnóstico na vida adulta e o processo contribuiu para compreender situações vivenciadas ao longo de sua trajetória. As dificuldades nem sempre são visíveis e pessoas que desempenham atividades acadêmicas e profissionais podem precisar de apoio ou adaptações.”
Como exemplo, Hérica explicou que fatores como ruídos, iluminação, interrupções, temperatura e excesso de estímulos podem modificar sua capacidade de concentração e organização durante uma aula. “Eu continuo sendo a mesma professora. O que mudou foi o ambiente”, afirmou.
A professora também abordou o conceito de barreiras atitudinais, que podem ocorrer quando necessidades específicas são desacreditadas ou quando adaptações são interpretadas como privilégios. Para ela, a acessibilidade envolve a identificação e a redução dessas barreiras. “Entre as estratégias que contribuem para a rotina estão a comunicação clara e objetiva, o registro escrito de informações importantes, a organização das demandas por prioridade, a previsibilidade das atividades e, quando necessário, maior flexibilidade na organização do trabalho.”
O estudante Guilherme Borges Domingos Cunha, que tem diagnóstico de autismo e TDAH, também compartilhou sua experiência acadêmica. Ele relatou as dificuldades de aprendizagem de determinados conteúdos e destacou a importância de buscar estratégias para lidar com as áreas em que encontra maior dificuldade. “As pessoas falam que a pessoa autista não pode ter amizade, mas não entendem que temos as nossas particularidades. A minha particularidade é ser sociável.”
Atualmente, a Sala de Recursos acompanha, aproximadamente, 130 estudantes e desenvolve ações de acolhimento e educação especial. O atendimento é voltado para a identificação das necessidades educacionais e a oferta de suporte aos estudantes, sem pressupor que dificuldades acadêmicas estejam necessariamente relacionadas a uma determinada condição.
Outro tema abordado durante a roda de conversa foi o capacitismo, especialmente em situações de preconceito e utilização de condições como autismo ou deficiência de forma pejorativa. Os participantes destacaram que expressões utilizadas como brincadeira ou ofensa podem contribuir para a reprodução de estereótipos e para a criação de barreiras acerca da participação das pessoas com deficiência e neurodivergentes.
A professora Karina destacou que o Brasil possui legislação relacionada aos direitos das pessoas com deficiência e que a efetivação desses direitos depende da adoção de práticas inclusivas pelas instituições. “É necessário também garantir condições para que estudantes e servidores possam participar das atividades e permanecer nos espaços educacionais e profissionais.”



